CAPÍTULO 1
Inglaterra, 1998
- Preciso realmente usar isso? Acho que vou chamar mais atenção que toda a comitiva real. – Angie queixou-se, enquanto observava-se ao espelho com uma expressão realmente desanimada. Trajava-se com um vestido um tanto quanto infantil num tom de verde água, parecendo uma das fadas da “Bela Adormecida” mesclada com a madrasta da “Cinderela”. Era inevitável comparar sua imagem à perfeição de sua irmã gêmea, Angélique. Apesar de idênticas, ambas conseguiam ser diferentes. Angelique se aproximou de sua irmã com um sorriso nos lábios, a abraçando por trás e praticamente sumindo por de trás da cintura larga da outra.
- Confesso que está realmente chamativo, minha irmã. Mas é culpada da escolha, quis ir ao tal show de rock e deixou nossa mãe escolher a roupa. Eu jamais trocaria uma ida a Gucci para ir até o show do…
- Stones, Rolling Stones. – Angie revirou os olhos, em seguida riu de sí mesma. Essa era uma das principais características da gêmea que nasceu 5 minutos antes da outra. Conseguia rir de sí mesma e das adversidades que ela mesma a colocava em sua vida. – Não adianta, só se eu emagrecesse ao menos uns 10 quilos e nem assim ficaria tão graciosa como você, mana. Acho que vou ter que me acostumar a ser confundida com uma couve-flor esta noite.
Apesar de serem gêmeas, problemas no casamento dos pais de ambas fez com que as jovens fossem separadas. A mãe de ambas, Sofia Yves, casou-se com um grande empresário inglês do ramo de vinhos. Já o pai, o fazendeiro Carl Johnson, manteve sua vida pacata no interior do Texas. A separação das meninas foi como se fosse a partilha dos imóveis do casal, cada uma foi para seu canto. Tiveram mais três irmãs pela parte do pai, que casou-se com uma jovem mexicana que veio fugida para os Estados Unidos.
Era inevitável o choque cultural entre as irmãs, mas o afeto entre ambas conseguia findar rapidamente com o primeiro impacto. Problemas eram o choque quando a guru da moda britânica encontrava sua filha desleixada. Sofia Yves tinha profundo desgosto todas as vezes que encontrava Angie com suas calças jeans surradas e os camisetões práticos com temáticas mexicanas. E naquela semana o drama entre a mãe e suas filhas foi maior. No sábado aconteceria a recepção da família real de Martines, um pequeno país de altíssimo PIB e famoso pela produção de uvas para exportação, negócio interessantíssimo para o padrasto das meninas. E naquela noite, o empresário apresentaria sua família à família real, esperando impressioná-los ao menos com sua esposa e sua enteada mais nova. Angie chegara na cidade por um infortuno do destino para a família Yves, que sem saber o que fazer com a situação resolveu levá-la. Seria um escândalo na sociedade se soubessem que deixaram a “patinha feia” em casa, apesar de que não seria nada ruim ao ver de Angie.
- Ah eu vou assim mesmo, dane-se. – Angie deu de ombros, saindo do quarto. O desastre já estava feito e nunca estivera animada para aquela festa pomposa. Ia mesmo pois sua mãe insistiu e, assumindo tímidamente, não iria perder uma boca livre daquelas. Não mesmo, queria era realmente comer aquela comida requintada e literalmente encher a cara. Sentou-se no sofá da sala rindo, queria tomar um pileque daqueles que jamais tomaria no Texas, já que seu pai ainda mantinha o costume de dar-lhe palmadas apesar de já ter 17 anos.
Eric Yves fitou a enteada com um sorriso calmo nos lábios, provávelmente desgostoso. Esperava as mulheres na sala, comando um pequeno cálice de licor e já trajando um belo fraque. Angelique era o orgulho daquele homem, que a praticamente criara e ajudara a moldar a personalidade da mesma. Já com Angie, que via uma vez a cada ano, tinha um relacionamento distante. Respeitoso mas distante, como se jamais pudesse considerar uma criatura tão estranha como alguém de sua linhagem. Ao chegar a esposa e a sua filha de criação à sala, a expressão do homem se iluminou.
- Divinas, como sempre! – Se aproximou de Angelique e beijou-a na testa e em seguida beijando os lábios da esposa. Partiram em direção à porta, sem sequer fitar Angie. A jovem seguiu-os com o olhar, erguendo-se do sofá e se sentindo mais intrusa do que nunca no seio daquela importante família britânica. A irmã, como se lembrasse da outra, voltou para trás e tomou-a pela mão enquanto seguiam em direção a limousine que os esperava. Sempre que se deparava com todo aquele luxo Angie se sentia um pouco caipira. Era inevitável a eterna comparação com sua irmã gêmea, a comparação com a vida que levava na fazenda do outro lado do Atlântico.
Assim que sentou-se com a família dentro da lumouise, passou seus olhos pelas imagens corridas de Londres pela janela. Sorriu, aprendera a se acostumar com o lugar já que vinha com certa freqüencia. Se acostumar, mas não sentir-se em casa. Faltava-lhe o calor, a terra que sujava seus tênis e botinas. Faltava os mosquitos e o cheiro de comida apimentada, o cantar dos bichos pela manhã. Novamente sentiu-se caipira e fitou a irmã, que estendia a mão na direção do adorado padrasto que a beijava. Angie deu de ombros, não a invejava. Só se sentia estranha naquele mundo que não era o seu. Perguntava-se o que teria acontecido se sua mãe tivesse a levado para a Grã-Bretanha e Angelique tivesse sido criada no Texas, como seria a personalidade de ambas?
- Angie, pare de sonhar. Já chegamos! – Aquela frase tirou a jovem de seus devaneios, fitando a mãe que já havia saído da limousine.
- Já? Mas não estamos….
- Já sim, querida. – Respondeu Sofia, impaciente. Angie desceu da limousine com certa dificuldade, tendo que carregar todas as camadas de sua vestimenta a lá vegetal consigo. Inevitávelmente, deixou um dos véus verdes presos na porta e com a partida foi praticamente carregada junto, rasgando uma das camadas da vestimenta. Eric fitou-a com profundo desgosto e Angelique riu baixinho, achando aquioo tudo muito cômico.
- Mas que inferno! – Resmungou Angie, sendo fitada pela mãe com um olhar de repreensão.
- Aqui não é a fazenda mocinha, fale como uma jovem deve falar. Porte-se feito uma lady. – Sofia falava e forçava o sorriso para alguns fotógrafos, que felizmente não haviam clicado nenhuma foto de sua filha.
- Para que alugar um carro tão chique e tão caro para percorrerem um bairro? Não faz o menor sentido! – Resmungou Angie, que notava que aos poucos seus parentes se distanciavam dela de maneira discreta. E não foi ela que correu atrás dos mesmos, tinha seu orgulho. Como não era esperada, não havia lugar para sí na mesa onde a sua família foi posta e Sofia também não fez questão de pedir um lugar para Angie, sorrindo de maneira discreta para a filha do outro lado do salão.
Quando deu por sí, Angie estava sentada na mesa onde haviam alguns membros da imprensa. A mesa mais odiada da festa, certamente. Viu algumas celebridades por alí, alguns políticos e jogadores de futebol. Depois da excitação de ver aquelas pessoas de perto, pessoas que só via pelos jornais e revistas, chegou o sentimento de ter sido enganada toda a vida. Eram tão normais quanto ela era. Nem tão belos, nem tão talentosos.
Por fim quando chegou os drinks, Angie começou a beber um vinho branco. Não ergueu-se quando a família real chegou, nem tentou fitá-los e mesmo se tentasse, não conseguiria já que seus companheiros de mesa eram tão afoitos que pensou que seria esmagada ou cegada pelos flashs. Irritada pela conduta de sua família e pela festa incrívelmente efadonha, tomou uma taça de champagne e saiu dalí em direção aos jardins do lugar. Foi então que reparou que alí era um tipo de clube hípico e sentiu-se mais feliz. Desistiu de carregar suas saias do vestido, as arrastava pela grama enquanto fitava os estábulos com uma expressão desejosa. Infelizmente, descobriu que já não conseguiria poder ver os animais e se contentou em sentar-se sobre as cadeiras perto do círculo de corrida dos animais. Deixou a taça de lado e fechou os olhos, ouvindo ao longe o som da festa. Droga, havia bebido demais! Sentia sua cabeça girar, girar e gi…
- Bebeu demais? – Aquela voz acordou Angie de seus devaneios, fazendo-a abrir os olhos de maneira brusca e fitando o rapaz que lhe dizia tais palavras. Até conseguir focalizá-lo, já havia respondido com sua costumeira maneira impulsiva.
- Bebí, essa festa está realmente chata. Só bebendo pra aguentar. -Ouviu uma risada de resposta e quando notou o estranho havia sentado-se do seu lado. Era extremamente magro, de cabelos loiros escuros e olhos castanhos. Tinha um óculos de fundo de garrafa e uma imensidão de manchas rosadas de espinhas em sua face. Era evidente que já tinha aproximados 22, 23 anos.
- Estranho, eu não te ví lá dentro. – Comentou o rapaz, com um forte sotaque nas palavras.
- É, eu estava na cozinha, junto com as outras verduras. Não notou que pareço uma couve-flor? – Riu e arrancou outra risada do rapaz, que por sua vez fez um sinal positivo.
- Quem lhe deu esse vestido certamente desejáva puní-la, senhorita.
- Foi minha mãe. Eu não fui com ela comprar a roupa para ir no show dos Stones. – Deu de ombros, não se arrependia. O rapaz por sua vez voltou-se e fez uma careta.
- Sortuda. Eu preferia estar vestido de brócolis do que ter perdido o show.
- E que show, meu amigo. Perdeu mesmo! – Angie o fitou de maneira vitoriosa, o que arrancou mais uma risada do rapaz estrangeiro. E então continuou. – Não é daqui, tenho certeza. Tem um sotaque forte, por acaso é da comitiva real de Martines?
- É, sou sim… – O rapaz pareceu hesitante, parecia que assuntos pessoais o tocavam de alguma maneira. – Mas você tem um sotaque nada britânico também, senhorita.
- Senhorita? Me chame de Angie. Não gosto dessas formalidades. – Ao vê-lo fitá-la nos olhos por trás dos óculos, o coração da garota bateu mais rápido.
- É praticamente praxe de onde venho tratar as pessoas com formalidades. Mas vou tentar, senh…Angie! – O rapaz sorriu, ficando ainda mais rubro e baixou os olhos. Era tímido! Angie viu-se tomada por uma intensa ternura dentro de sí pelo seu novo conhecido. – Angie é seu nome verdadeiro ou é por causa dos Stones? – O rapaz pareceu lembrar da música e perguntou de raspão, fazendo com que a moça risse.
- Não, é meu nome mesmo. – Mentira, não era seu nome. Era seu apelido e com a música dos Stones lhe trouxe ainda mais alegria de ser chamada por tal. Se chamava Angela, um nome que considerava um tanto quanto austero para sua personalidade extravagante.
- Gostei. – Foi o que o rapaz respondeu.
- E o seu nome é…?
- Rafael.
- Hum, nome de anjo, de pintor… – Rafael deu um tapa no ar, como se não gostasse muito de seu nome. Ao longe um grito foi dito em italiano, a língua de Martines, e o moço suspirou. Ergueu-se e então preparou-se para partir, um tanto quanto hesitante. Então, por trás dos óculos fundo de garrafa fitou a americana e sorriu.
- Este é meu cartão, poderia me ligar amanhã? – Entregou um cartão branco com apenas um número. Misterioso ou sem graça?
- Claro, Rafael. – Sorriu, enquanto dobrava o pequeno cartão. O rapaz ficou alí, em pé, com as pernas levemente abertas como se estivesse em estado de choque. Parecia hesitante em deixá-la mas um novo grito o fez partir, sem antes fazer uma mesura que Angie achou antiquada e brega…Mas imensamente charmosa.
Em questão de minutos, Angie retornou a festa onde sentou-se em sua mesa. Procurou Rafael com o olhar, mas nada achou. Em questão de minutos seria encontrada por Angelique que a tomou pelas mãos e a levou para fora, estavam partindo. Quando adentraram à limousine recebeu um olhar temeroso da mãe, que lhe forçou um sorriso.
- Desculpe minha filha, sei que deve ter sido horrível a festa para tí mas…
- Não se desculpe mãe, eu gostei bastante. – Voltou a face para fitar as ruas de Londres, ainda lembrando-se de Rafael. A mãe fitou-a suspeita enquanto Angelique a observava com curiosidade. Era evidente na expressão de Angie que algo especial havia acontecido com a garota e sua irmã a pressionaria até saber tudo. Tudo mesmo.
Texas, 2008
- Hum, não vejo motivos para toda esse reboliço. A gravidez está correndo bem, perdeu um pouco de sangue por ser uma estabanada, só isso…- Riu Angie, dando um tapinha de leve na cabeça da vaca Branquinha. O velho John Teppers sorriu, aliviado.
- É, acredito que tenha sido isso mesmo. Que alívio você me deu, Angie. Desculpe te ligar assim, no meio da noite… – O homem coçou os cabelos brancos, embaraçado.
- Não se preocupe, me chame sempre que se preocupar. E também, estava um pouco entediada hoje.
- Você vive entediada, Angie. – Murmurou Carl Johnson para a filha, que colocava suas coisas dentro da maleta branca. – A verdade é que é a festa de noivado de Graça e ela odeia essas coisas sentimentais.
- Que mentira, pai! Você vive me difamando…- Riu, enquanto estendia a mão na direção de John e se despedia do mesmo com um firme mover de cabeça. Odiava a maneira como seu pai sabia decifrá-la só com o olhar, aquilo era realmente irritante. Seguiram na direção da picape vermelha suja de lama e a moça deixou a maleta na parte da caçamba, sentando-se na cadeira do passageiro enquanto o pai já afivelava o cinto de segurança. Não o fitou, estava mesmo irritada com o comentário dele de poucos momentos atrás. Passou-se alguns minutos em silêncio dentro da cabine do carro e logo o velho patriarca Johnson tornou a falar.
- Eu não vou me desculpar, sabe disso. É que as vezes você precisa ouvir umas verdades.
- Verdades?! Ah pai, me poupe. – Tal qual uma menina birrenta, Angie cruzou os braços e fitava a estrada, sem dar atenção visual ao pai.
- Sim, verdades. É a minha filha mais velha e tenho muito orgulho de tí. Formou-se veterinária com louvor, é a única de todos nós que é letrada e é muito competente no que faz. Mas parece que nunca enfrentou a vida.
- Pai… Se não quer brigar comigo, não continue.
- Então vamos brigar, menina! Formou-se na cidade e voltou pra esse fim de mundo. Só sabe trabalhar e cuidar de nós, só isso. Coloca dinheiro dentro de casa e nada mais.
- Não é bem assim pai. Saio todos os fins de semana para dançar, comprei minha moto, estou juntando um dinheiro para ir ver …- Calou-se, franzindo os lábios.
- Ver Angélica, não é mesmo? Ela continua te ligando e falando de maneira chorosa, sei disso. Quando vai parar de ser a mãe de suas irmãs e pensar em sí mesma? Já tem quase 30 anos! – Carl estacionou o carro e Angie praticamente saltou da picape, pegando sua maleta e deixando o pai falando sozinho, embora aquilo lhe trouxesse dor no coração. Deu a volta por trás da casa, evitando encontrar a família de Emílio, o noivo de sua irmã, e a sua própria família. Quando deu por sí, estava trancada em seu quarto enquanto ouvia os passos de seu pai a seguindo. O homem bateu em sua porta, parecendo irritado com a conduta de sua primogênita.
- Se ainda fosse gastar seu dinheiro para ver alguém que merece sua atenção, Angie! Mas não, seu coração é mole e você vai lá consolar justamente a sua irmã que roubou seu noivo. Sua irmã que tanto lhe fez mal e… – A porta se abriu e Angie encostou sua cabeça na madeira da mesma, fitando o pai de maneira cansada.
- Você não sabe do que está falando, pai.
- Sei dos fatos. Angelique roubou seu pretendente a oito anos atrás e desde então você virou essa múmia.
- Não pai. Não foi só ela que fez isso. Ele também me traiu pai. Ele a induziu… – Suspirou, parecendo cansada de remoer aquela história. Deu um beijo na testa do pai e deu-lhe as costas. – Vou pensar no que me disse, mas agora vou tomar um banho e dormir. Tenho muito o que fazer amanhã.
Carl deixou-a, murmurando um “boa noite”, enquanto ao mesmo tempo sentia-se culpado por sentir tanta raiva de Angelique. Era sua filha, mas suas atitudes o faziam chegar a desejar que a sorte lhe deixasse um dia. Não a via desde seus 14 anos de idade, a fazenda não atraía a jovem herdeira de Eric Yves. E foi melhor assim, no fim das contas.